Gente que a gente admira divide conosco pequenas lições sobre o uso do dinheiro.

TROCO

'Não me imagino longe de uma planilha financeira'

O meu desequilíbrio financeiro iniciou logo no meu primeiro emprego. A partir do momento que recebi o primeiro salário, me senti livre - livre para gastar todo o meu dinheiro onde eu quisesse, já que enquanto só estudava os meus pais não podiam me dar tudo o que queria. Logo algumas lojas me ofereceram cartões de crédito, uma comprinha aqui e outra comprinha ali e, quando me dei conta, meu salário estava quase todo comprometido com as "pequenas parcelas" e mesmo assim eu não deixava de consumir.

Sem dinheiro físico na conta, tudo que fosse necessário comprar eu passava no cartão de crédito. Até então estava tudo certo, eu ainda conseguia pagar as faturas com o valor integral, sempre estava com sapatos novos e a qualquer momento que eu quisesse uma roupa nova, não media esforços e parcelava na maior quantidade de vezes possível. Comprar à vista era quase impossível.

Embora eu conseguisse pagar as faturas de cartão de crédito, não me sobrava nada do salário em dinheiro físico e quando algum local não aceitava crédito ou então quando eu já havia estourado o limite do cartão, era um sufoco. Eu nunca sabia quanto ainda do cheque especial eu poderia usar. Não me esqueço de um episódio em que fui passear no Centro da cidade com a minha irmã, ela era pequena, paramos em uma lanchonete para fazermos um lanche e na hora de pagar a conta ao passar o débito informava como "Não autorizado". Tentamos umas três vezes e não era erro da máquina, simplesmente não havia mais limite de Cheque Especial para usar. Saí da lanchonete, deixei meu documento no caixa e fui até uma financeira que eu tinha crédito disponível e na hora mesmo fiz um empréstimo para poder pagar o lanche.

Sem fazer sequer reserva financeira e vivendo no sufoco devido ao consumo excessivo, de um dia para o outro eu e a minha família nos deparamos com um imprevisto no orçamento familiar, um benefício que a minha mãe recebia foi cortado e o recurso familiar reduziu em mais que 50%. A partir desse momento a minha realidade mudou, meus pais já não conseguiam me ajudar a pagar a faculdade e foi nesse momento que me dei conta o quanto a falta de planejamento me prejudicou.

Nesse período eu tive que escolher entre continuar a faculdade ou continuar pagando as minhas contas, optei em pagar as mensalidades e com isso o meu nome foi negativado por várias lojas e inclusive pelo banco que eu tinha cartão de crédito. O Cheque Especial já havia estourado além do limite, e assim vivi por quase dois anos. Foram os piores anos da minha vida, além de não ter dinheiro pra nada, a todo momento era abordada por ligações de cobrança, o meu emocional ficou extremamente abalado e até mesmo a minha saúde foi prejudicada.

Quando eu me formei, já que não teria mais as mensalidades da faculdade para pagar, me posicionei comigo mesma: "Eu nunca mais vou passar por essa situação novamente". Organizei as contas, priorizei as que tinham juros mais altos e aos poucos fui negociando e liquidando uma por vez. Antes de realizar qualquer compra me questionava dez vezes se era realmente necessário. Comecei a fazer planos de viagem e compra de carro, me foquei em realizá-los, adotei um novo padrão de comportamento com o uso do dinheiro, disse não para muitas situações e percebi que com estas mudanças consegui realizar objetivos em um período inferior ao que imaginava.

Continuei buscando informações que me auxiliassem na administração do meu dinheiro, me especializei no assunto e hoje tenho uma vida financeira tranquila, organizada e posso dizer que não me imagino longe de uma planilha financeira e nem sei como consegui viver tanto tempo sem uma. E o que mais me deixa feliz é poder compartilhar a minha experiência e auxiliar as pessoas a encontrarem um equilíbrio em suas finanças e, contudo, evitar que um dispêndio de dinheiro influencie negativamente outras esferas da vida.


Joyce Rezende é consultora financeira e uma das palestras do evento Coaching para Mulheres: Yes, We Can!

‘Viver bem o presente é mais importante do que ter metas’

Minha relação com o dinheiro sempre foi muito boa. Me organizo financeiramente desde que comecei a receber mesada dos meus pais. Isso provavelmente porque meu pai assim me ensinou. Ele tinha uma boa relação com o dinheiro, soube construir um patrimônio que manteve minha mãe bem após a sua morte.

Fiz faculdade fora de casa e, portanto, nessa época tive uma conta conjunta com meu pai. Eu poderia me descontrolar e gastar mais do que deveria, mas sempre fui muito responsável com o dinheiro. Mensalmente, eu fazia um relatório e mostrava ao meu pai onde e como estava gastando. Isso foi muito importante na minha vida profissional, pois, quando comecei a trabalhar, continuei fazendo esse controle e juntando dinheiro mensalmente, mesmo que fosse só um pouquinho.

Era muito natural ter essa organização para mim. Aos poucos, percebi que não era assim para todas as pessoas. Comecei, então, a estudar mais sobre finanças pessoais e a ajudar amigos e familiares a investir melhor o dinheiro e a se planejarem.

Nesse caminho, aprendi que cada pessoa precisa encontrar seu equilíbrio entre viver plenamente o presente e pensar no longo prazo.

Tive a experiência de viver alguns anos de minha vida mais preocupada em realizar metas futuras do que em viver bem o presente. Fiquei focada nesses objetivos e não percebi meus sentimentos em relação ao presente. Ou melhor, eu diria até que pensar nas metas era uma fuga para não encarar uma realidade, um presente que não era saudável para mim.

Quando tive câncer de mama pela primeira vez, em 2008, a realidade do que eu vivia ficou muito nítida:  meu relacionamento não tinha mais sentido. Fiz cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Assim que o tratamento terminou, e eu estava mais fortalecida, pedi o divórcio.  Mudei muitas coisas em minha vida e o valor delas mudou para mim. Com isso, mudei totalmente a maneira com que me relaciono com o dinheiro.

Eu sempre tive metas de curto, médio e longo prazos e as controlava de perto. Anualmente, traçava novos objetivos e conseguia realizar a maioria deles. Mas, diante das revelações que tive, aqueles planos todos perderam o sentido, o valor.

Viver bem o presente passou a ser muito mais importante do que ter metas. Essa foi uma mudança enorme no meu pensamento, nos meus valores e na minha vida.

Só recentemente voltei a traçar metas e a encontrar o equilíbrio entre o agora e os planos e, desde então, vivo muito mais leve e feliz. Isso não quer dizer que deixei de pensar no futuro e ter reservas financeiras, só me mostrou que o equilíbrio entre viver plenamente o presente e pensar no futuro não é tão cartesiano.

As minhas dicas para quem está passando por dificuldades financeiras?

A primeira é buscar um equilíbrio das finanças o quanto antes, no sentido de reduzir ao máximo o custo fixo.

A segunda é valorizar o seu trabalho, pesquisar maneiras de aumentar a renda, prestar serviços que você realmente saiba fazer e de que as pessoas precisem. Acredite nas suas habilidades, aprenda a aprimorar seu trabalho e as suas vendas.

A terceira recomendação é para comprar realmente o necessário e nada mais que o necessário. Espere a renda voltar a aumentar e as coisas se estabilizarem para poder investir em reservas financeiras.

Se a pessoa possui dívidas, terá que ter muita paciência e disciplina para se organizar e eliminar as pendências. Mantenha-se firme. É como um regime: uma pessoa que precisa emagrecer muitos quilos demora mesmo para emagrecer com saúde. Eliminar dívidas é a mesma coisa.

Viviane Ferreira é planejadora financeira

 

 

'Tudo tem a sua hora de acontecer'

Sempre fui aquela mulher que vivia na dúvida entre racionalizar o uso do dinheiro e economizar ou comprar algo que queria muito, agindo por impulso.

Apesar de realista quanto ao dinheiro, já recorri às compras para suprir uma decepção amorosa, um desentendimento com o chefe ou simplesmente superar um dia ruim.

Só fui entender o que é estresse causado pelas finanças depois de casada. Trabalhava para pagar as contas somente e nunca consegui fazer uma poupança. Várias foram as falhas, desde compras mal pensadas a viagens que poderíamos ter evitado naquele momento, mas queríamos demais para falar não um ao outro. Não houve arrependimento do que fizemos, mas, olhando para trás, vemos que poderíamos ter feito diferente.

Agora trabalhando como empresária e gerindo um negócio próprio, aprendi que é preciso sim separar o que é necessário do que é somente um impulso, pois as contas não deixarão de chegar e ninguém vai deixar de te cobrar. Tudo tem a sua hora de acontecer, desde que você saiba se organizar e esperar.

Não fico mais me remoendo com o que não posso ter, foco naquilo que pretendo ter num futuro próximo, que é muito mais importante do que uma compra por impulso poderia me proporcionar.

Tatiana Ambrozio é franqueada da Quinta Valentina, rede de franquias de sapatos

'Sabíamos que os sacrifícios do dia a dia teriam a recompensa'

Vi a importância do planejamento financeiro na minha família desde muito nova. Vivia numa família de classe média, dessas remediadas, mas sem muito luxo. Até que o destino nos pregou uma peça: aos 35 anos e com dois filhos pequenos, a minha mãe ficou viúva. Além da óbvia sequela emocional, o momento econômico nos abalava. Era o início dos anos 90 e o congelamento da poupança tornou uma situação já difícil ainda pior.

Tivemos que nos organizar. Ajusta daqui, ajusta dali e com muito planejamento financeiro conseguimos conquistas importantes para uma família em meados dos anos 90. Ainda me recordo do dia em que compramos o primeiro computador de mesa, uma novidade nos lares brasileiros naquela época! Foi um evento! Tudo com muito esforço, mas muito bem saboreado, já que sabíamos que os sacrifícios do dia a dia teriam a recompensa quando a conquista chegasse.

Comecei a receber minha mesada na adolescência e sempre fui orientada a reservar parte dela para compras maiores. Quando comecei a trabalhar com 16 anos, a preocupação com o bom equilíbrio entre aproveitar aquele “dinheirinho suado” e guardar parte dele para comprar algo que quisesse ou para tentar garantir uma aposentadoria tranquila já estava presente. Certamente a escolha pela profissão de economista também tem a ver com essa boa relação com as finanças e com o meu interesse no assunto.

Hoje me orgulho de estudar o comportamento do consumidor e entendo a importância de disseminar os conceitos de educação financeira para os brasileiros. Percebi que a necessidade de ampliar os conhecimentos sobre finanças não tem ligação somente com gênero, escolaridade ou classe social. É uma necessidade para todos, uma vez que o brasileiro não coloca a vida financeira como prioridade. Passa 40 horas por semana ganhando dinheiro, mas esquece de dedicar uma horinha no seu fim de semana para cuidar deste dinheiro. A educação financeira fez muita diferença na minha vida e certamente pode fazer a diferença na vida de todos.

Marcela Kawauti é economista-chefe do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito). Formada em economia pela FEA-USP e com mestrado em Economia e Finanças na Fundação Getúlio Vargas (FGV), trabalhou em bancos como o Bradesco, Itaú e J.P. Morgan.

'Os problemas não estão no extrato bancário'

Você é pão duro! Quantas vezes ouço isso. Não, eu não sou pão duro, simplesmente tenho força suficiente para dizer não quando uma situação está fora das minhas possibilidades financeiras. Estudei em ótimas escolas, frequentei ótimos clubes, mas o destino, na adolescência, me tirou de um automóvel Mercedes com motorista para um ônibus Mercedes com motorista e cobrador. Aprendi a valorizar as coisas e, mais importante, as pessoas, não importando o nível social, pois elas têm sempre algo a me ensinar.

Poupando sempre, mas não deixando de curtir a vida, fui aprendendo a administrar meus recursos, com foco, planejamento e não acreditando em milagres. O esforço de cada dia, o dinheiro poupado, um pouco ao mês, um pedaço das férias, o décimo terceiro salário. Tudo era aproveitado até que consegui dar a entrada no meu primeiro apartamento. Pequeno, bairro simples, longe, mas meu e quitado muito antes do prazo do financiamento.

A fórmula ia dando certo e nada deixou de ser feito. O automóvel, as viagens, os hobbies. Hoje acredito que posso pensar numa velhice segura e equilibrada, mas ainda trabalhando muito, sem deixar de "queimar a sola dos sapatos", como costumo dizer.

Pode parecer pretensioso, mas hoje tento passar esta experiência através do meu trabalho, que intitulei "Finanças pessoais – Reflexões e Planejamento", tendo como princípio que os problemas não estão no extrato bancário, mas sim na cabeça das pessoas, daí a importância da reflexão.

Foi com este espírito simples, de acreditar no trabalho, na poupança, no tempo e na permanente busca de conhecimento, que passei a fazer parte do projeto "Meu Bolso Feliz" do SPC Brasil, que tanta satisfação me dá ao poder levar para os mais diversos públicos a mensagem que a realização de sonhos é fruto de muito trabalho, planejamento e pés no chão. É preciso ter equilíbrio e força de vontade. Pão-duro? Não, não precisa ser.


José Vignoli é educador financeiro do portal 'Meu Bolso Feliz', uma iniciativa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). Consultor e palestrante, possui mais de trinta anos de experiência em diversos segmentos do mercado financeiro nacional e internacional, inclusive em private banking em Luxemburgo, Europa.

 

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